Você está curtindo a viagem?

Fiquei muito tempo sem escrever. Argumentei comigo mesma, e tentei buscar as razões pelas quais eu não me dediquei a essa arte que tanto aprecio. A realidade é que nenhuma das respostas plausíveis cabe no contexto – não foi falta de tempo, de vontade ou impossibilidade por conta das ferramentas.

A impossibilidade veio de mim.

Tenho passado por um grandioso deserto em diversos setores da minha vida. Eu já não consigo me abrir tão facilmente através dos textos, porque não consigo me abrir facilmente. Parece que as palavras, os atos, os sentimentos – tudo o que conseguimos carregar nessa bagagem chamada vida – tudo isso ficou preso dentro de mim. E há muito tempo sinto que tudo se tornou uma avalanche grandiosa. Uma bagunça maior que os pensamentos do Gus. Pior que a bagunça das estrelas sem constelações.

Me tornei uma carregadora da bagagem vida – sem nem ao menos me dar ao trabalho de abri-la e gozar do seu conteúdo. Sabe aquelas pessoas que passeiam pela vida sem curtir a viagem? Pois é. O mesmo sentimento representado aqui.

Sempre fui boa em aproveitar os pequenos momentos, os sorrisos mais singelos e toda e qualquer oportunidade de sorrir. Talvez o tal peso da vida adulta pairou por aqui. Talvez, de uma forma bastante bruta e sem direito a réplica, eu me afundei no mundo das grandes obrigações e fazeres. E o pior, sem indagar ou argumentar se, de fato, eu estava notoriamente satisfeita com o procedente.

Pois bem, eu não estou.

Sempre costumo refletir sobre o peso de nossas obrigações e nosso papel social nesse mundo tão gigantesco. O papel de neném fofinha, filha obediente, aluna exemplar, universitária sensata, profissional responsável, senhora respeitada e uma velhinha doce. Sério? Eu sempre acreditei que não me encaixava nesse papel – aliás, eu já borrei o currículo quando deixei a categoria neném fofinha.

Tecnicamente, estou perdida no paradoxo temporal do universitária sensata e profissional responsável. Não que eu não seja sensata ou responsável – eu sou sim – mas é isso? Digo, não tem outras categorias? Não posso me encaixar em outros fazeres? Quem é que disse que esse sistema está fechado nessas categorias classificatórias?

Mais do que isso, por que eu – que sempre pulei fora das rotulagens padrões – cai na armadilha do fundamentalismo categórico? As amarras da sociedade nos prendem de forma tão delicada, que mal podemos identificá-las. Isso acontece, normalmente, quando as amarras já nos sufocam e delimitam poucos pontos de paz.

Na minha atual categorização, a parte que se abre, conversa coisas sem sentido e escreve pra aliviar a alma se perdeu, pra que a parte responsável e sensata pudesse tomar todos os espaços da existência.

Por conta disso, não tô curtindo a viagem.

E ela acaba, cara. A viagem acaba.

Quando acabar, como poderia eu, depois de me deixar amarrar e sufocar, contar pontos sobre como a vida é maravilhosa e merece ser vivida? Como posso deixar um testemunho de vida bem aproveitada e bem usufruída? Não posso.

Decidi começar uma nova categoria universal pra quem já se cansou das outras categorias todas – a categoria LIVRE. Igualzinho a quando a professora de artes escrevia as palavras mais desejadas na lousa: desenho do livre.

LIVRE

Sem as amarras. Sem as categorias. Livre. Começa agora.

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