Um conto sobre você

Noite passada eu pensei muito em você. Pensei muito em nós. Pensei muito em rótulos. Atualmente, as pessoas se relacionam por meio de rótulos, tudo que elas sentem ou pensam sentir rotulam com algum adjetivo que justifique o motivo pelo qual elas estão (ou melhor, devem estar juntas). Eu não sei por que, mas sempre achei isso tão superficial. A maioria das pessoas que rotulam todos os tipos de relacionamentos e sentimentos são tão superficiais… Digo isso, porque a maioria não aceita outro tipo de envolvimento senão for aquele rotulado e esquematizado já para a sociedade e esquecem o verdadeiro sentido de estar com alguém. O verdadeiro sentido de nutrir por aquela pessoa determinado tipo de sentimento. Claro que todas as pessoas sonham com o ritual sagrado do conheço-envolvimento-ficada séria-namoro escondido-namoro em casa-noivado-casamento –envelhecer juntos. Mas será que todos esses rótulos valem a pena se as duas pessoas, as únicas duas pessoas que sentem, nutrem e vivem o sentimento, não entendem o verdadeiro sentido de todos esses rótulos? Eu sempre visualizei que a maioria das pessoas usavam esses termos por serem superficiais – e esse ainda continua sendo o meu conceito – muitas pessoas que eu conheci e convivi não sabiam o motivo pelo qual ainda continuavam com determinados garotos, com determinados namorados ou determinados maridos, elas não sabiam o motivo simplesmente porque se acomodaram aos rótulos. É visível, mesmo no século XXI, que as pessoas ainda te qualificam e te subjugam pelo simples status de relacionamento. Se você não namora até os 15 anos e não tem o “príncipe-namorado” para dançar aquela valsa você é considerada a “atrasada da turma”, se você aos 25 anos não tem namorado-noivo para dançar a valsa de formatura sua família vai cogitar a hipótese de que você será solteira para o resto da vida, se você aos 35 anos for bem-sucedida, com uma carreira em ascensão e com muitos projetos em execução sua família e a sociedade em que você vive ainda lhe cobrarem para que tenha um marido. Será que nós realmente precisamos mesmo de alguém para satisfação das outras pessoas ou precisamos de alguém para a nossa satisfação e para nossa felicidade individual?
Sempre quando escutava minhas amigas falarem “preciso de um namorado” eu pensava porque eu não conseguia pensar dessa forma. Sim, nessa época eu me sentia anormal porque eu não buscava um namorado e sim, alguém. Alguém para conversar, para rir, para viajar ao redor do mundo, para dividir momentos e histórias. Alguém que eu poderia contar em momentos difíceis como nos fáceis também, alguém que compreendesse minhas brincadeiras e que também brincasse, alguém extrovertido e que também fosse sério quando o assunto requeresse tal característica. Alguém que fosse criança, mas também adulto. Alguém que me levasse ao parque, mas também a um jantar a luz de velas. Alguém que me levasse para conhecer sua família naquele típico almoço de domingo. Alguém que enxugasse minhas lágrimas e que mesmo com o meu silêncio entendesse a situação e permanecesse apenas ao meu lado porque saberia que era somente daquilo que eu precisava. Alguém que me conhecesse, mas que descobrisse a cada dia uma nova vertente de mim. Alguém que suportasse meus defeitos tremendos e exaltasse minhas qualidades. Alguém que me abraçasse e jamais me soltasse. Alguém que me beijasse como se toda vez fosse a primeira. Alguém que, mesmo com vários corpos esculturais perfeitos existentes no mundo, preferisse o meu… Sim, o meu com algumas cicatrizes da minha infância… Aquela cicatriz que eu tenho porque cai da árvore ou aquela que tenho porque quis entrar no parquinho da fazenda me encaixando entre os arames farpados… Mesmo com todos os defeitos de fábrica e aqueles eventuais que adquiri pela vida ainda preferisse o meu corpo. Alguém que não quisesse apenas minha juventude, mas sim a minha fase adulta e principalmente a minha velhice… Alguém que quisesse envelhecer ao meu lado – sim, alguém com quem dividir o cabelo branco, o esquecimento, a surdez, a visão já embaçada, as longas sonecas durante a tarde e aquelas tarde de verão em que de mãos dadas admirássemos nossos netos correndo por nosso quintal cheio de flores, estas plantadas por este alguém no começo da nossa vida juntas – e que envelhecer fosse o nosso maior prazer. Alguém que me amasse – e eu amasse – por todos os dias da nossa vida juntos.
E eu procurei esse alguém. Foi uma longa procura. Tantos desacertos em busca desse alguém. Mas eu sabia que – mesmo parecendo improvável – esse alguém aparecia. E que eu o reconheceria. Reconheceria suas qualidades e seus defeitos. Reconheceria sua vinda e sua vontade de jamais ir. Entre idas e vindas, esse alguém existiria.
E foi depois de tanta procura – uma busca implacável – você apareceu. Eu reconheci esse alguém em você. Esse alguém que eu sempre pedi a Deus para ser abençoada a encontrar.
Mas eu também pedi a Deus que ao encontrar essa pessoa Ele me concedesse o amadurecimento, porque para que a concretização de todos esses desejos é necessária a espera do tempo. Tempo – para muitos o indesejoso tempo – para mim o amado tempo. Digo isso porque de todos os relacionamentos pelos quais passei o tempo foi a cura incrivelmente perfeita para todos eles. O tempo cura feridas consideradas “incuráveis”, mas aprendi que nada é incurável pela simples razão de que a cura é você mesmo. É você e o seu tempo. Aprendi que por mais difíceis que tenham sido os seus aprendizados com cada pessoa que adentrou e saiu de sua vida. estes são primordiais para o seu crescimento. Ficaram feridas? Ficaram. Claro que ficaram. A cura não significa que as feridas tenham desaparecido, mas sim que cicatrizaram… E essa cicatriz demorará um tempo para não doer mais. Isso significa que o tempo irá aos poucos trabalhar sua auto-confiança, sua auto-estima, seu amor-próprio, sua insegurança, seus medos e principalmente o fato de ter se fechado. Não exclusivamente para o mundo, e sim para si mesmo.
E ao conseguir se abrir para si mesmo se abrirá para o mundo e para todas as oportunidades, sentimentos e sensações maravilhosas que este pode ofertar.
E é nesse momento que não há rótulos. Que se danem os rótulos! Que se dane a sociedade! Que se dane as pessoas! Se tem algo pelo qual vale a pena nesse mundo é lutar por aquilo que traz a felicidade. E nesse momento, aqui, eu encontrei o que me faz feliz.
Sua felicidade pode estar a um metro de distância como também a mil quilômetros. Sua felicidade pode ser uma questão de escolha, que talvez possa ferir… Mas lembre-se que se ferir por alguém que vale a pena não é tão ruim quanto parece. Uma vez perguntei a minha mãe porque ela tinha continuado com o meu pai mesmo depois de tantas feridas que ele tinha feito em seu coração e em sua vida também e para minha surpresa a resposta foi simples: – Eu permaneci ao lado dele porque o amo. E insisti nele porque sabia se o amor fosse forte o bastante, ele mudaria. Não por mim ou por você, mas por ele, porque ele se salvando também iria salvar nossa família. E foi o que meu pai fez. Meu pai procurou apoio psicológico e médico para controlar seu vício alcoolico e controlar o ciúme excessivo que sentia por minha mãe. Eu poderia ter crescido desacreditada no amor, por ver meus pais brigarem, se ofenderem, se machucarem, se agredirem, mas pelo contrário, eu cresci acreditando que o amor é capaz de salvar. O amor salvou minha família. Minha família não foi salva por um rótulo, e sim pelo amor.
Eu admiro minha mãe. Minha mãe foi o motivo de eu sempre querer algo além de rótulos. Uma vez perguntei a ela porque não usava aliança, ela simplesmente riu e disse: – Uma aliança não diz nada. Um papel assinado não diz nada. Uma vida diz tudo. E é isso que eu tenho com seu pai e a aliança que eu sempre terei com ele vai ser você.
Não estou dizendo que uma aliança não seja algo lindo – porque é – e sim, eu quero usá-la, mas primeiro de tudo eu quero isso: uma vida. Eu quero que a aliança que irei carregar por anos, carregue com ela toda a vida que eu e esse alguém (esse alguém que reconheci) iremos construir e que ela se fortaleça por laços intermináveis como aconteceu com meus pais.
Eu admiro meu pai. Mesmo com os erros, admiro a sua força de vontade para mudar o lado ruim que carregava junto dele para se salvar e salvar a nossa família. O admiro por seu o espelho de homem honesto e honrado que tenho. Por ter feito da pequena filha uma grande mulher.
Então, se meus pais tiveram a coragem de fazer escolhas, eu quero ser corajosa. Eu quero fazer minhas próprias escolhas. E eu escolho você. Escolho ser ferida por você porque sei que de alguma forma essas feridas nada mais serão do que o caminho para descobrir o quão lindo é a felicidade.
O futuro é incerto. Mas hoje, agora, nesse espaço-tempo, você é esse alguém. Mas sei que para ser esse alguém completo é necessário tempo. Como sei que para ser completa para você é necessário tempo. Eu acredito e peço para que Deus nos conceda o tempo certo para transformarmos cada dia mais naquilo que um e outro precisa na medida certa.
Eu quero rótulos com você – claro que quero rótulos – quero todos possíveis. Mas antes de todos esses rótulos, eu quero ser alguém. Quero ser o alguém que você tanto buscou e pediu para que aparecesse em sua vida. Quero transformar tudo o que estava errado em certo. Quero que se sinta importante, que se sinta amado e que sinta o melhor. Porque você é o melhor para mim.
Que tal começarmos essa longa jornada juntos? Não vai ser fácil, vai ser muito difícil. Mas mesmo assim é a minha escolha. E a faço sem medo de errar. E vou esperar o tempo que for para que seja a sua escolha, sem medo ou sem receio de achar que não é a melhor escolha para mim. Eu espero por você. Eu espero por seu tempo.
Aliás, o tempo só demonstra o quanto algo vale a pena. E você vale.

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