O poder do NÃO.

Não sou uma pessoa de proibições. Sempre gostei (da pouca) liberdade que tive. Valorizei a possibilidade de poder fazer o que viesse a mente desde muito nova. Ouvir não era constante em minha vida de menina do interior. Mas o fato de ser constante não tornou isso mais fácil em momento algum.
Mas, mais difícil que ouvir um não, sempre foi dizer não.
Talvez seja fruto de todas as proibições da minha infância. Não brinque com os meninos, não fique na rua depois que escurecer, não suje essa roupa ou perca o seu brinco novo de pérola. A resposta favorita dos meus pais era NÃO, e talvez eu sempre tenha relacionado essa palavra com frustração. Assim, decidi que privaria as pessoas dessa palavra indesejosa.
Frustração.
Quando somos novos, dizer sim pros outros parece tão simples. Aliás, pra mim sempre foi fácil dizer sim pros outros. Pra mim, a resposta continuava não. Mas quando se tratava de qualquer pessoa que recorresse aos meus cuidados, minha resposta seria um grande e majestoso SIM. Mas então crescemos. E muitas vezes, a carga emocional das pessoas que nos procuram em busca de um sim também cresceram.
A minha capacidade de dizer sim, pelo contrário, foi ficando escassa.
Agora, já não havia mais a sensação libertária de dizer sim. Com o passar dos anos, acabei me aprisionando dentro de toda a minha liberdade – ou ideia de. Em diversos momentos, o SIM acontecia só porque eu não suportava a ideia de que os outros não mereciam um não.
Outros vinham pelo meu medo de dizer não quero, não estou com vontade, não tomo partido e tantos outros… Medo de decepcionar. Medo que os outros não conseguissem lidar com o não.
Frustração.
Eu comecei a conhecer essa palavra de todos os ângulos. Não por dores alheias ou por conta de qualquer NÃO que eu pudesse dizer. Na verdade, foi por conta de todos os SIM. E quem sofreu fui eu.
Liberdade? Não sabia como era. Acabei me prendendo em toda a responsabilidade de fazer todos serem felizes com minhas respostas, minha simpatia e necessidade de deixar todos saborearem a liberdade e satisfação de ouvir um SIM, pode sim, faço sim, empresto sim, claro que sim.
Só que fazer tantas vontades alheias estavam me roubando de mim mesma. Já não sabia mais meus próprios gostos, vontades e sonhos. Pra mim era sempre não.
E eu entendi uma coisa simples: eu sobrevivi com todos os meus nãos. Sobrevivi e fiquei mais forte a cada dia. A frustração não veio deles. A frustração veio da sensação de não conseguir mais dizer quando não queria algo ou quando não tinha gostado. Estava presa ao meu sim. Estava presa, em cárcere privado, dentro de mim mesma.
E então, resolvi olhar pela janela. Fora daquele cárcere haviam pessoas sorrindo, correndo atrás de seus sonhos, apesar de inúmeras portas na cara. E as pessoas estavam mais felizes do que os portadores do meu eterno sim. E estavam mais felizes que eu – toda pregadora da alegria e boa vontade.
De olho nessa janelinha, resolvi tomar uma atitude corajosa. Três letras. Entoação forte. E muitas diferenças.
Disse não.
Um NÃO forte, sonoro. Cheio de verdade, e cheio de mim.
“Não, eu não posso fazer isso pra você dessa vez”. Talvez eu não iria poder dali pra frente… Era cedo pra saber. Mas, ao dizer um não, vindo do meu coração, autêntico e forte, senti a liberdade verdadeira.
Senti que é muito fácil fazer aquilo que me faz bem- ainda que isso fizesse com que pras outras pessoas a resposta frequente fosse não. Mas um não sincero, é mil vezes melhor que um sim automático e aprisionador.

E a maior liberdade, foi entender o tanto de amor que recebi dos meus pais com cada não.
Quem ama, escolhe o melhor. Ainda que não seja o mais doce. Ainda que sejam três letras.
N
Ã
O.

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