Podemos tentar de novo?

Quando foi que nós nos tornamos tão frios e medrosos?
Me lembro da minha infância. Lá eu nunca tive medo de amar. Sempre queria abraçar as pessoas, coisas e animais. Lembro inclusive que eu “namorei”, quando tinha 4 anos, com meu amigo de infância. “Namorei” porque era na minha cabeça. Ele nunca soube (e se você ler isso algum dia, é verdade mesmo. Eu passei muitos anos gostando de você enquanto a gente brincava de digimon).
As coisas foram mudando, e uns anos mais tarde eu namorei platônicamente com o namorado da amiga da minha mãe. E na minha cabeça era lindo, ele sempre me levava pra passear e me comprava doces – afinal, a namorada dele era quem cuidava de mim e ele sempre estava junto. Alguns anos depois, fui florista no casamento deles. Nunca me arrependi pelo meu amor infantil, afinal, era inocente e bobo.
Quando chega a adolescência, nós acreditamos que toda a coragem do mundo mora em nós. E toda a rebeldia vem a tona. Beijos, ficadas na escola e pra algumas pessoas até um rolê mais intenso – o que nunca foi meu caso. Nessa idade começam os primeiros vestígios dessa coisa louca que vamos nomear mais abaixo.
Todo mundo fica com todo mundo. E as relações são leves, livres e passageiras. Até os namoros platônicos começam a esfriar – no meu caso, ganharam um nome e uma vergonha: Felipe. Conhecido como Felipão da 8ª A. Ah, ele era muito bonito. Mas só descobriu que eu existia por conta de uma situação envolvendo amigas, um microfone e a hora do recreio.
E daí pra frente, o que era pra ser cada vez mais simples, se tornou cada vez mais complicado.
Essa coisa de amor, relacionamento e tudo mais sabe?
Nunca consegui entrar na dança.
Resolvi parar com os namoros platônicos, afinal, todas as amigas estavam namorando na real ou ficando com 10 por festa, e eu ainda perdida no tempo espaço não conseguia entender como as pessoas poderiam se envolver em tão pouco tempo – ou pior: como poderiam dividir tanta coisa sem envolvimento algum.
E então cheguei a conclusão.
Eu tinha medo do amor. Um medo absurdo que fez com que eu não estivesse nem em um lado, nem no outro. Não namorava, tão pouco ficava com 10 por festa.
Eu ficava comigo mesma. Eu, meus livros e os estudos. E os questionamentos sobre como esse amor poderia ser louco.
Alguns anos depois (e muitas histórias fracassadas depois também), percebi que no lugar do amadurecimento, fui apenas criando mais medo. Vivi relacionamentos à distância. Briguei com meio mundo, dizendo que sabia amar sim, e que não tinha medo algum.
Mas eu tinha medo sim.
Todo mundo tem um pouco de medo do amor. Porque ele machuca. Ele nos molda. Mas ele também cura. Só que é muito difícil entender isso sem estar com uma pessoa de verdade. Com alguém que se decide por você – e que você decida estar junto também.
Estar com 10 numa noite também não é coragem. É medo de se envolver com pelo menos 1. Porque se envolver é complicado. E demanda doação. De si, do seu tempo, do que você tem.
Eu ainda não entendi muito bem como é que funciona.
Eu tenho medo.
Mas eu quero ter de novo aquela sensação de proteção ao estar do lado de alguém, como quando eu tinha 4 anos.
Porque eu precisei de 23 anos pra entender que minha coragem se esconde numa garotinha que não tinha medo de tentar.
Que sempre soube que cair é bem mais legal que só observar os outros.
Que sabia que brincar de digimon no escuro iria garantir vários pernilongos, e ainda assim valia o risco. E que entendeu que se apaixonar por alguém porque você o admira é um presente tão maravilhoso, que não merece ser perdido com mil – ou ficar guardado só pra si.
Amar é se arriscar. Vou riscar o medo.
Oi amor. A gente pode tentar outra vez?
Como diria Ed Ruivo,

Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que fica mais fácil
Lembre-se disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos conosco quando morremos

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Um comentário sobre “Podemos tentar de novo?

  1. Uau. Eu tbm tenho essa estranha relação com o amor que ficou pior do que nunca antes esse ano. Acho melhor deixá-lo quieto no canto dele até a poeira baixar, não acho que estou bem o suficiente pra tentar me entender com ele de novo. Talvez eu precise de um pouco mais que 23 anos (ano q vem faço 25).
    Gostei muito do texto!

    http://thisiskeyko.com

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